O psicoterapeuta disse que sou hiperativo. A criação deste blog surgiu pouco depois de ser assim diagnosticado. Segundo o site especialista Hiperatividade (que já existia antes do meu blog, mas eu não sabia!), os portadores deste distúrbio são freqüentemente rotulados de "problemáticos", "desmotivados", "avoados", "malcriados", "indisciplinados", "irresponsáveis" ou, até mesmo, "pouco inteligentes". Mas garante que "criativo, trabalhador, energético, caloroso, inventivo, leal, sensível, confiante, divertido, observador, prático" são adjetivos que descrevem muito melhor essas pessoas. Eu, particularmente, creio que sou uma mistura disso tudo aí. Cheio de muitas idéias, muitos sonhos e muitos projetos. Muita vontade e muito trabalho. Muitas vertentes e muitas atividades. Sou editor-adjunto do Crônicas Cariocas. Não deixem de visitar minhas colunas: Cinematógrafo; Crônicas; Poesias; e HQs. Ah! Visitem o Magia Rubro Negra , site de apaixonados pelo Mengão, para o qual tive o prazer de ser convidado a fazer parte da especial equipe!!!

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

DEPOIMENTOS: 5. Tito


A proximidade dos quarenta anos tem me deixado nostálgico, buscando lembranças dos “bons tempos”. Aqueles em que não me preocupava com as contas a pagar, em que me sentia invencível e eterno e em que o mundo era muito mais simples: sexo, drogas e rock and roll, mesmo que minhas drogas fossem o álcool e a nicotina do hoje maldito cigarro. Eu era feliz e não sabia.

Com a nostalgia, não sei o porquê, veio a autoavaliação. Descobri-me meu maior crítico (“Se for falar mal de mim, chame-me! Sei coisas terríveis a meu respeito.”)! As verdades que descobri de mim mesmo deixam-me envergonhado e triste. Com isso, vem uma solidão enorme, um vazio maior ainda, uma necessidade incomensurável de mudanças e a estúpida constatação de que não tenho a menor ideia de como mudar coisa alguma.

Hoje, acordei desanimado. Uma dor no ombro direito que me incomoda há dias, mas que resolveu se fazer mais presente nessa madrugada e me acompanhar durante o dia. Entrei no táxi para ir para o trabalho e, ao ligar o tablet, escutei: “Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.”, da música “Roda Viva”, do tricolor Chico Buarque. Sorri, um sorriso besta, e pensei comigo mesmo há quanto tempo venho me sentindo assim. Nem sei mais dizer.

A psicóloga do meu filho diz-me que tenho que valorizar menos as coisas ruins e devo encontrar aquilo que me faz feliz. Mulher inteligente. Gosto dela e gosto de conversar com ela, mas não consigo fazer o que diz e que, da maneira que fala, parece tão fácil. Nessas horas, sinto-me burro, incapaz e impotente. Queria ser tão capaz e tão inteligente quanto as pessoas acham que eu sou. Aliás, sempre penso que estou desapontando os outros por conta disso.

Quarenta anos e, ao olhar para trás, não vejo nada que preste além dos meus filhos.  O que fiz durante esse tempo? O que construí? O que realizei? O que é digno de nota e de orgulho? Sinto que minha vida é uma imensa perda de tempo, que tudo que eu fiz e faço vale nada e que não represento diferença alguma. Sei que algumas pessoas gostam de mim e que outras me amam. Sei disso. O que sinto é que não faria falta em suas vidas, a menor diferença se estivesse ali ou não. Mesmo para meus filhos, que amo mais que tudo e todos, não sei se sou realmente necessário, se sou uma figura paterna relevante ou apenas um provedor de recursos. Sei que não faz sentido, mas, mais uma vez, é como me sinto.

Não são apenas os filhos. O que represento para meus pais? Para meus irmãos? Para meus parentes? Para meus amigos, próximos e distantes? Para as mulheres que passaram pela minha vida? Será que essas pessoas lembram-se de mim por coisas boas ou apenas pelas muitas falhas? Será que se lembram com carinho ou com ódio? Com simpatia ou rancor? Fui machucado pelo caminho, mas tenho minhas dúvidas se não magoei muito mais que sofri. Por que diabos sinto tanta culpa?

Desde que me separei, há dois anos e meio, foram inúmeros relacionamentos, em sua grande maioria, fúteis e vazios. Na minha ânsia de “voltar ao mundo”, como se estar casado fosse uma prisão – que não é –, machuquei muita gente que não merecia. Pessoas boas que magoei, não intencionalmente, mas que se machucaram mesmo assim. Também encontrei algumas que me decepcionaram, mas que, sendo sincero, não me magoaram porque, na verdade, eu não me importava com elas. Foram apenas pessoas com as quais dormi, mesmo que eu tenha tentado me convencer que me relacionava ou namorava.

Não sei se é essa incapacidade de sentir algo que tem me feito sentir como tenho me sentido. Essa sensação de coração vazio, quebrado e inutilizado. Acredito que sim, mas também creio estar errado. A verdade é que eu não sei. Só tenho dúvidas, nenhuma certeza além daquela com a qual nasci: um dia terei realmente partido, morrido. Apenas não sei quando, mas também não faço a menor questão de saber.

O que eu faço para ganhar a vida é honesto, mas é algo que detesto fazer, ainda mais com determinadas pessoas que tornam tudo mais difícil com suas picuinhas e seus egos inflados. É, porém, o que me dá sustento e me permite dar um mínimo de educação e proteção de saúde aos meus filhos. Também é, infelizmente, o que me prende. Não posso me dedicar ao que gosto, que acredito que me dará um futuro melhor, porque preciso do pouco dinheiro que o detestável garante. Assim, vou me consumindo nesse inferno.

“Roda viva, roda gigante”. Como o brinquedo do parque, roda, roda, mas não sai do lugar. É como remar contra a maré. Estou cansado. Não desisti, mas estou cansado. Tanto que não tenho conseguido fazer nem aquilo que gosto: escrever, criar histórias, literatura e cinema. Olhei para a tela e resolvi digitar o que saísse da mente. Resultado: consigo escrever, mas não o que me importa, apenas este desabafo que mais parece coisa de um maníaco depressivo e suicida.

Depois de quarenta anos, com a convicção que, pela média, tenho aproximadamente mais quarenta, só resta um caminho a seguir. Buscar forças em mim mesmo para mudar o panorama, para tentar de novo, para preencher os espaços vazios, para criar, para fazer diferença, para deixar, pelo menos, uma pequena marca, para não apenas passar pela vida.

Sou feito de cacos, mas não estou quebrado. Sou uma leva de cacos, juntados num monte. Pequenos pedaços variados de mim mesmo. Com pensamentos conflitantes, algumas vezes aleatórios, outras, contundentes. Só sei que meus eus são inúmeros, mais que trezentos, e nunca bastam. Hei de seguir acreditando, tendo esperança em mim mesmo e crendo com todas as forças que amar não é o mesmo que sofrer, que amei muito, que amarei de novo, que realizarei meus sonhos e que o coração não ficará vazio para sempre. Que venham mais quarenta anos, pois é tempo de me reinventar!

Jogo


A gente chega a um ponto na vida em que percebe que ela é nada do que a gente imaginava. Ela ensina que o que aprendemos é pouco e que esse pouco, quase sempre, é relativo. São tantas variáveis, tantas maneiras de se interpretar. Como diriam os mais jovens, a vida trolla a gente, sem dó, piedade ou compaixão. A vida é impessoal e não está nem aí.

As decepções são tantas. Os segredos e as vergonhas acumulam-se. Guardamos tudo dentro de nós a ponto de nos fazer mal. Não confiamos em mais ninguém para confidenciar ou mesmo desabafar. Temos medo de ser julgados, independente de haver ou não um veredito justo. Não queremos julgamento, queremos compreensão, apoio e permuta de experiências.

Os tombos foram tantos. As cicatrizes, profundas e feias, são eternos avisos de “perigo”, “não confie”, “você se decepcionará de novo”, “essa pessoa vai te sacanear” e por aí vai. Fica difícil, quase impossível, abrir-se de novo. Resultado: você se convence de que fica melhor sozinho. Mas a solidão chega e, por mais que você não queira admitir, sente falta de um alguém que possa ouvir e falar sem falsos pudores, que se importe com você e não com as coisas que fez.

O problema é que toda essa segurança, toda essa proteção, toda essa desconfiança, todo esse receio, todo esse medo, essa merda de casulo em que você se enfia, deixa-o cego para quando a pessoa aparece. Ela vem e você não a percebe ou não acredita. O bom é que a pessoa nunca vai embora, nunca desiste. Ela não insiste, não pressiona. Às vezes se afasta, mas está ali, esperando ser notada. Ela sabe que tudo depende de você.

Há um porém. Ela também é igual a você. Precisa das mesmas coisas. Sente-se sozinha e não gosta disso. Também tem dúvidas. Aí, você a vê com alguém e pensa que ela é volúvel, que não o quer de verdade e você se decepciona, mas não por causa dela, decepciona-se por causa das experiências passadas que o levam a julgar da maneira que não queria ser julgado.

Alguns conseguem criar um casulo e afastar todos e tudo. Ficam totalmente sozinhos, mesmo se machucando no processo. Outros não conseguem ficar sozinhos e pulam de relacionamento em relacionamento na vã esperança de encontrar aquela pessoa, que ela sabe quem é, mas que demora tanto que a enche de incertezas.

De incertezas em incertezas, vamos vivendo, deixando “a vida nos levar” ou nos trollar. Sabendo, entretanto, que só depende de nós qualquer passo. Fechar-se em um casulo é uma segurança relativa, pois a consequência é passar pela vida e não a viver. É necessário arriscar-se, não se ganha na loteria sem jogar.

A vida é o jogo, o amor é o risco e ser feliz é o prêmio. Muitas vezes, nessa loteria, faremos alguns pontos ou ponto nenhum. Em alguns momentos, ficaremos a um ponto da premiação máxima. Mas, com muita insistência e alguma ventura, podemos tirar a sorte grande. É necessário arriscar. Vamos jogar!

domingo, 18 de setembro de 2011

Fazendo algo


Governo x povoÉ difícil entender o estado das coisas. Como deixamos chegar ao ponto em que estão e, mais importante ainda, como não tomamos atitude alguma? São impostos e mais impostos. Recordes de arrecadação atrás de recordes. E o que temos em contrapartida? Saúde? Debilitada! Educação? Deficiente! Estradas? Esburacadas! Segurança? Privada! A pública está na privada. Temos, sim, pardais e pardais espalhados por aí para o Estado arrecadar um pouquinho mais; tadinho! Quando cancelaram a CPMF, aumentaram diversos impostos. Agora, estão falando em criar um novo, igual à CPMF, mas com outro nome, para ajudar a saúde (creio que já vi este filme). Não escutei, todavia, coisa alguma sobre baixar os outros.

Nós temos é que pagar, além dos impostos e taxas, tudo aquilo que o Estado deveria dar-nos pelo que pagamos. Planos de saúde exorbitantes, colégios particulares, segurança (quem pode) e o conserto periódico do carro que se dana todo por causa dos buracos aonde quer que se vá. Fora as multas que, volta e meia, aparecem. Alguém consegue dirigir a quarenta quilômetros por hora se não for para passar por uma lombada eletrônica? É ou não é palhaçada? Já observou como ônibus, vans e kombis fazem o que querem e o guardinha parece que não vê? Experimente esquecer-se de colocar o cinto ou parar o carro onde não deve.


O pior de tudo é observar como os nossos políticos votam, inescrupulosamente, seus absurdos aumentos, de salário ou de benefícios, enquanto o sindicato vota dissídios de categoria ínfimos, de quatro por cento, para nosso pobre salário. Olha que, este ano, ainda foi “isso tudo”; no ano passado, o aumento foi de três e pouco por cento. Enquanto isso, a lata de leite em pó que custava quatro reais e trinta centavos há pouco menos de um ano, custa, hoje, seis reais e oitenta centavos, NA PROMOÇÃO! E a energia? E a gasolina? E o gás? E a água? E o aluguel? Melhor parar por aqui. Quero escrever ainda, chorando, não dá!


Nosso maior problema, hoje, chama-se falta de ideologia. Temos inúmeros partidos, mas nenhum com uma ideologia definida, pelo menos não na prática. Seus afiliados votam não porque acreditam no que estão votando, mas porque precisam de votos para os seus projetos. Uma verdadeira meinha política: eu voto a favor do seu se você votar a favor do meu; eu consigo livrá-lo da sua CPI se você livrar meu companheiro da dele; e por aí vai. Os mesmos sujeitos que acusam, por conta da moral e dos bons costumes, são aqueles que costuram acordos para livrar os acusados. E assim, vamos vivendo, escândalo após escândalo, pizza após pizza.


Aí, vem um amigo meu, que prezo muito, e diz: Há motivos para reclamar? Sim, mas também há motivos maiores para dar a sua participação e não ficar só se lamentando. Um País é construído com a participação de todos. Ter orgulho de si mesmo já é um bom começo. Se não há perspectivas, lute para que elas existam. Não seja o rato que morre afogado no balde de leite. Discurso bonito, cheio de filosofia. É muito bacana a idéia de lutar pelo que acha certo e de participar, mas, então, vem, com força, a pergunta: participar de quê? Daquelas passeatas no centro da cidade que protestam com sorrisinho no rosto? Das orações pedindo ajuda divina? Ser um político também? Candidate-se a um cargo público e não se prostitua e verá quando será eleito e poderá lutar por alguma coisa. Que tal abandonarmos nossos empregos e fazermos uma marcha até Brasília para exigir mudanças?


Dizem que um dos motivos da transferência da capital, do litoral para o interior do país, foi a Segurança Nacional: a capital no litoral estava vulnerável a ataques estrangeiros. Lembra de algum? Outro motivo seria afastar os governantes da concentração de atividades e das pressões populares. Qual motivo parece mais lógico? Lá, não há pressão popular, é tudo festa.


Você pode dizer que já fizemos o impeachment de um presidente. Pergunto: fizemos? Ou fomos levados a fazer? Não faço defesa do Presidente Collor, muito menos digo que ele era santo. O que argumento é: será que conseguiríamos o impeachment se não houvesse interesses dos outros representantes da classe política? Temos visto inúmeros escândalos, tão grandes ou maiores que aquele, mas nada acontece. O quarto poder procura falar sobre o Caso Isabella ou sobre os travestis do Ronaldo. Nada de caras-pintadas como na época do “Fora Collor!”. Por quê?


Escutamos avisos de que devemos escolher bem, que temos que aprender a votar e que somos responsáveis pelos nossos representantes. Não quero esta culpa. Não sou eu quem escolhe as opções e, por mais que eu vote em branco ou nulo, não faz diferença. Não quando os milhões de miseráveis deste país votam por causa das migalhas que recebem: as bolsas e vales isso ou aquilo. Fica assim, então: os miseráveis, com suas bolsas-família, vale-leite, vale-refeição a um real, vale-remédio, pagode, cerveja e churrasquinho na comunidade e na laje, votando nos mesmos políticos de sempre, que, por sua vez, jogam as migalhas para os miseráveis e nos achatam com impostos e mais impostos para pagar as migalhas e as nababescas vidas que levam.


Qual a solução, então? Sinceramente, não vejo! Nenhuma que não venha de uma tomada de poder. Não, não estou falando de golpe militar, até porque, não creio que seja do interesse das forças armadas fazerem qualquer tipo de movimento neste sentido. Quando falo de tomada de poder, falo em tomada de poder civil. Meu problema é que não acredito que, do jeito que os congressistas amarraram o sistema, consigamos mudanças com "a força do voto". Ou há uma tomada de poder ou pode esquecer. Não há perspectiva de mudança, nem de melhora. O problema é que as leis foram montadas de um jeito que torna impossível essa utopia.


Aquele mesmo amigo lembrou-me, então, da fábula que fala sobre o gato e os ratos, aquela em que um rato tem a brilhante idéia de colocarem um guizo no gato. Assim, todas as vezes que o gato se aproximasse, os ratos saberiam pelo toque do guizo posto no pescoço. Entretanto, a voz da discórdia tinha que aparecer e perguntar: "Quem vai colocar o guizo no gato?". E ele continuou: Temos idéias, vontade e certeza do que queremos, mas quem será o nosso porta-voz diante das mazelas que presenciamos? Quem vai colocar o guizo no gato? É uma boa pergunta. Quem? Não sei. Mas, se conseguirmos fazer as pessoas começarem a perguntar, já será um grande começo!

domingo, 26 de junho de 2011

Intercurso

Rômulo mora no Grajaú, zona norte do Rio de Janeiro. Ele, seus pais, seu irmão mais velho e sua irmã caçula. Enfrentam as dificuldades comuns a uma família de classe média, mas são felizes e não passam necessidade. O pai possui um pequeno restaurante no bairro e a mãe é uma boleira de mão cheia, daquelas que não consegue dar conta de todas as encomendas que aparecem. Investem nos filhos com uma educação que, se não é a melhor, é acima da média.
São frequentadores assíduos da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em frente à Praça Edmundo Rego, bem pertinho de casa. Uma família de católicos praticantes que seguem os mandamentos e que recebem os sacramentos. Não são ortodoxos, mas fervorosos. Uma fé verdadeira e inabalável. Não têm dúvidas que tudo o que construíram, e o que ainda construirão, é por meio da graça divina.
Rômulo é o segundo filho da família Pontes. Recém-saído da puberdade, um rapaz alto e de ombros largos. Não é o tipo musculoso, mas forte, aquele tipo que se costuma chamar parrudo. É um rapaz tímido, introvertido e respeitador. Ele é um símbolo de virtude. O que, aliás, é uma coisa muito difícil, visto que vive em guerra com os próprios hormônios. Seus maiores companheiros são os livros e o computador. Ler e escrever são o mundo dele. É comum encontrar o jovem no seu quarto lendo ou digitando o teclado do seu notebook.
Luz do quarto apagada, mas o abajur no criado mudo ligado. Rômulo cochila com o livro “Insônia”, de Stephen King, aberto sobre seu peito. Sem perceber, é claro, a ironia nisso. A respiração normal dá lugar a uma ofegante, os olhos mexem-se continuamente, cada vez mais rápido, por sob as pálpebras fechadas. O suor começa a brotar em sua testa. Como se explodisse, acorda catapultando o corpo para frente. Olha para os lados, situando-se. Começa a se acalmar, pega o livro que caiu no chão, joga-o na cama e pega o celular na cabeceira na cama. Duas da manhã. De repente, a energia é cortada. Não enxerga um ponto de luz sequer, nem mesmo pela janela. A única luminosidade vem do tênue luar.
Ele pensou em voltar a dormir, mas o barulho de vidro se despedaçando chamou sua atenção e ele decidiu verificar o que tinha acontecido. Ligou o aplicativo flashlight do celular e saiu do seu quarto. Chamou por seus pais e não houve resposta. Chamou seu irmão e nada. O quarto dos pais estava vazio. O do irmão também. O quarto da irmã estava com a porta fechada. Tentou abrir e não conseguiu. Escutou o choro dela e se preocupou. Pediu que ela abrisse a porta, mas não foi atendido. O choro ficou mais alto. Ele começou a forçar a fechadura, chamava pela irmã, parecia querer arrancar a porta do lugar, mas não adiantava. Começou a dar trancos com o ombro na porta, mas ela não cedia. E então ele escutou a menina gritar. Ele deu espaço da porta e se jogou em direção a ela. De nada adiantou. O grito cessou e um silêncio sepulcral seguiu-se. Ele chorou desesperado e encostou a testa na porta. Ela abriu como se estivesse apenas encostada. Entrou no quarto, procurou, procurou e não encontrou vivalma.
Saiu do quarto da irmã, passou pelo banheiro, que estava aberto e desocupado, e foi para as escadas. Descendo devagar, arriscava chamar a família, mas não recebia resposta alguma. O nervosismo e o medo vieram em profusão. Não entendia o que estava acontecendo. Onde estariam todos? As escadas acabavam em um corredor. À esquerda, copa e cozinha. À direita, banheiro social e sala de estar. O nervosismo era tal que a boca estava seca. Decidiu beber água. Passou pela sala de jantar e chegou à cozinha. Um estalo de vidro partindo. Iluminou o chão e viu cacos do que deveria ser um copo. Pegou um copo e foi à geladeira. Abriu-a e pegou uma garrafa a esmo. Encheu o copo. Ao beber, sentiu a textura e o gosto de sangue. Instintivamente, cuspiu e largou o copo, que se espatifou no chão. Iluminou o chão com o celular, mas só viu vidro e água.
O aparelho em sua mão emitiu um sinal sonoro que indica que a bateria estava acabando. Procurou velas para não ficar na escuridão. Achou uma no armário da cozinha. Pegou um pires, acendeu a vela, derreteu um pouco a parte de baixo e fixou no pequeno prato. Ao levantar a cabeça, viu uma moça parada no corredor, pouco antes da entrada da cozinha. Não conseguiu esboçar uma reação, a beleza da menina era estonteante. Longos cabelos pretos que caíam sobre ombros nus. Ela usava algo como um corpete escuro e uma saia, também escura, que delineava seu corpo. Parecia saída de um dos vídeos hentai que mantinha escondidos no seu lap top. No tremeluzir da vela, as sombras deram a impressão de que havia asas nas costas dela. Um estrondo de trovão desviou a atenção de Rômulo por um momento, que olhou para a janela atrás dele. Quando voltou o olhar para frente, a moça sumia, correndo na escuridão no final do corredor.
– Espera! – mas ela não esperou.
            Ele desatou a correr atrás dela. A vela em cima da mesa tremeluziu e apagou. Ao chegar à sala, ele escorregou e caiu de costas no chão. Algo úmido e pegajoso em toda sua volta. Um relâmpago e percebeu que estava em meio a muito sangue. Outro clarão e viu seus pais, pálidos e ensanguentados, à sua esquerda. Outro clarão e viu seu irmão, do mesmo jeito, à direita. Mais um relâmpago e viu sua irmã, sua pequena irmãzinha, olhando-o de cima, em pé atrás da sua cabeça. Sua pele alva demais, seus lábios negros como o entorno dos seus olhos e estes, sem íris e sem pupilas, apenas esclera. Ela levantou o braço e apontou a porta da rua. Nela, pintada com sangue, uma cruz irregular e de cabeça para baixo. Mais um relampear e ele se viu sozinho, deitado em chão limpo e a rua aparecendo pela porta aberta.
            Levantou, ainda sem entender o que estava acontecendo, mas decidiu correr para a rua. Nada em casa fazia sentido mesmo. Ventava forte, o céu estava negro. Raios rasgavam o céu, seguidos dos ensurdecedores trovões. A exemplo de casa, não viu uma pessoa sequer. Pensou se seria possível que todos tivessem sido arrebatados e apenas ele tivesse sido deixado para trás. Será que aquilo era o início do apocalipse bíblico? Avistou então a bela garota, que estava em sua casa, ao longe, no final da rua. Mal a viu e ela começou a correr em direção oposta à dele. Sem saber o que fazer, decidiu ir atrás dela. Em sua disparada, acabou chegando à Praça Edmundo Rego. A praça estava como fica nos finais de semana: os acessos a carros, fechados; as barraquinhas de produtos artesanais; os carrinhos e as motos elétricas que são alugadas para as crianças brincarem; as charretes; os carrinhos de pipoqueiro; as bicicletas; etc., mas sem quaisquer pessoas ou bichos.
            Do outro lado da praça, em frente à igreja, a garota olhava para ele. O cabelo esvoaçava ao sabor do vento. Ele continua tendo a impressão de ver asas atrás dela. O vento ficou mais forte, derrubando as bicicletas que ainda estavam em pé, virando barraquinhas, carrinhos e motos elétricas e empurrando os carrinhos de pipoqueiro para os lados. De repente, um raio atingiu a árvore próxima a ele, partindo-a. Um pedaço caiu por cima de um carro explodindo os vidros, fazendo um enorme estrondo e disparando o alarme do veículo. Ao olhar de novo para a igreja, a garota havia sumido, mas conseguiu observar a porta se fechando. Correu, com dificuldade, quase caindo algumas vezes, para a igreja. A grade da frente estava aberta, subiu o pequeno lance de escadas e tentou a porta da casa divina.
            Rômulo entrou, mas não passou do nártex, pois não enxergava nada à sua frente. A escuridão era densa, quase palpável. A única luz vinha da porta aberta. Ele tentou voltar, mas mesmo tendo dado poucos passos ao entrar, não conseguia alcançar a porta, que lentamente se fechava. A porta bateu ao mesmo tempo em que trovejou forte. Não dava para saber ao certo se o enorme som era da porta fechando ou de um dos trovões que insistiam lá fora. Não fazia diferença agora, o silêncio era tão absoluto quanto a escuridão. O medo dominou-o de vez. Com ele, veio o desespero e a nauseante sensação de impotência. Caiu de joelhos ao chão, colocou as mãos no rosto, arqueou o corpo e começou a chorar copiosamente.
– Deus, ajude-me! – Suplicou.
            O som de um grande porta movendo-se tirou-o do estupor. Ao olhar para frente, a nave da igreja estava toda iluminada, mas era totalmente diferente da que ele se lembrava. Portas gigantescas descortinavam um caminho em meio à escuridão à sua volta. Levantou-se desconfiado, mas reuniu coragem para passar pela porta. Percebeu que a iluminação era oriunda de grandes velas distribuídas ao longo do corredor. Ao caminhar em direção ao altar, observou que arcos separavam a nave principal das colaterais. Sob cada arco, havia uma cruz e em cada uma delas havia alguém crucificado. Na verdade, corpos mumificados. Não havia sangue. Era como se cada corpo tivesse sido pregado na cruz depois de totalmente ressecado. Era simplesmente apavorante. Ele tentava não olhar, mas não conseguia. Andava devagar, olhando para todos os lados com medo de que alguém ou algo tentasse pegá-lo. Os bancos ao longo da nave estavam repletos de pessoas sentadas trajando mantos negros, que pareciam não se importar ou achar normal ter crucificados à sua volta. Eles rezavam uma ladainha ininteligível. Ao levantarem, Rômulo percebeu que os fiéis eram nada mais que esqueletos vestidos.
            Ao chegar ao transepto, a visão era um misto de beleza, assombro e terror. A abside era toda trabalhada, magnífica. No centro dela, uma enorme cruz com o Cristo crucificado e, de cada lado dele, uma cruz com uma mulher nua crucificada ainda com vida. No presbitério, nada inanimado, apenas a linda garota que Rômulo perseguia desde sua cozinha. Ela sorria e era uma imagem convidativa e apaixonante, fazia-o esquecer toda a loucura que vivera até ali. Seu coração acelerou e os hormônios faziam seu corpo latejar. Ele não se conteve e caminhou até ela. A garota emanava um calor reconfortante e exalava um cheiro intoxicante, era pura magia. Rômulo estava louco por ela. Eles se abraçaram e se beijaram com volúpia. Deitaram-se, ele de costas, ela por cima. A saia não deixava que se visse coisa alguma, mas era óbvio que estavam com os corpos unidos como a natureza concebeu que um homem e uma mulher deveriam se conectar.
– Qual o seu nome? – conseguiu perguntar.
– Lilith – ela respondeu arrancando-lhe a camisa.
            Rômulo soltou o colete da garota enquanto se movimentavam lenta e sensualmente. Ele não percebia, ou não queria perceber, mas eram observados pelas mulheres crucificadas, que sorriam maliciosamente. Lágrimas de sangue escorriam dos olhos do pétreo Cristo. A ladainha dos mortos aumentou o volume. Subitamente, enormes asas de couro abriram-se nas costas da menina, enquanto ela arqueava o corpo para trás sobre o corpo do entregue jovem, que a achava ainda mais linda. A respiração tornou-se ofegante prenunciando o momento do êxtase. A ladainha, a respiração ofegante e os gemidos do casal misturavam-se. Os olhos da menina estavam diferentes, não havia íris ou pupilas, eram apenas escleras negras. Foi a última imagem que viu, pois fechou os olhos no momento do prazer sublime e tudo virou escuridão... e silêncio.
            A polícia não sabia com o que estava lidando. Não havia sinal de vandalismo ou mesmo de invasão à Igreja. Havia apenas um corpo em frente ao altar. Mas não era apenas um corpo, era um jovem mumificado que, em vez de estar coberto por faixas mortuárias de algodão ou linho, estava completamente nu. Nada indicava quem era o rapaz ou como havia chegado ali. Fiéis lotavam a igreja tentando saber o que acontecia ou tentando ver a múmia. Para completar a estranheza da situação, havia uma palavra entalhada em sua testa: súcubo.
– O que quer dizer essa palavra? – perguntou um dos policiais, visivelmente impressionado com o defunto à sua frente.
– Dizem as lendas que é um demônio mulher que invade o sonho dos homens para se alimentar da energia vital deles por meio de uma conjunção carnal – respondeu o pároco da Igreja.
            Os policiais olharam-se com ceticismo e certo ar de riso, mas o padre logo emendou:
– É claro que isso só pode ser fruto da imaginação fértil e doentia do criminoso.
           A família Pontes passou pela porta da Igreja e caminhou em direção à aglomeração para descobrir o que estava acontecendo e se tinha a ver com o sumiço do filho. A caçula percebeu uma garota de longos cabelos pretos, usando um corpete escuro e uma saia, também escura, parada na porta. Elas se olharam por um breve momento. A súcubo sorriu, virou-se lentamente e foi embora.


sexta-feira, 10 de junho de 2011

Um Violinista no Telhado

Galera, assisti ontem e achei ótimo! Um espetáculo maravilhoso, com um elenco afiado e um cenário fantástico. A cena do sonho do personagem de Mayer é empolgante! Sem dúvida, uma noite inesquecível!

Com direção de Charles Möeller e Claudio Botelho, o espetáculo é o primeiro musical de José Mayer

O título da mais nova produção musical de Charles Möeller e Claudio Botelho, ‘Um Violinista no Telhado’, é também a expressão que melhor define a vida de seu protagonista. Pai de cinco filhas, o rústico Tevye é o leiteiro de um vilarejo judeu encravado na Rússia Czarista.nbsp; Sempre em conflito para sobreviver e honrar as tradições religiosas, ele enfrenta problemas tanto dentro – as filhas se rebelam contra os casamentos arranjados – quanto fora de casa, em uma época que ataques russos (os chamados pogroms) expulsariam milhões de judeus da região.
Baseado nos tradicionais contos judaicos de Sholom Aleichem, ‘Um Violinista no Telhado’ estreou na Broadway em 1964, com música de Jerry Bock e Sheldon Harnick e uma celebrada coreografia de Jerome Robbins. Tornou-se imediatamente um clássico, sendo o primeiro musical da história do teatro americano a ficar em cartaz por mais de sete anos. Quase meio século depois, o musical ganha nova versão brasileira a partir de 20 de maio, no palco do Oi Casa Grande. Fruto de uma parceria entre a Aventura Entretenimento e a Conteúdo Teatral, a superprodução reúne elenco de 43 atores liderado por José Mayer, que faz sua estreia no teatro musical.

Embalados pelo recente sucesso de ‘Hair’ e ‘Gypsy’ no ano passado, Möeller, Botelho e a Aventura se uniram à produtora paulista Conteúdo Teatral para apostar neste clássico do teatro musical americano. O projeto já é avaliado como a maior produção realizada pelo grupo. Além do numeroso elenco, o espetáculo reúne 17 músicos regidos pelo maestro Marcelo Castro, cerca de 160 figurinos assinados por Marcelo Pies – que acaba de ganhar o Prêmio Shell por ‘Hair’ –, nove trocas de cenário, a cargo de Rogério Falcão, e a recriação coreográfica original de Jerome Robbins, feita por Janice Botelho. A grandiosidade é apenas um dos desafios encontrados ao se montar este que é considerado o ‘Rei Lear’ dos musicais.
Além da complexidade de produção, a célebre peça de Shakespeare também encontra paralelos no enredo de ‘Um Violinista no Telhado’. Assim como Lear, Tevye (José Mayer) entra em conflito com três filhas, Tzeitel (Rachel Rennhack), Hodel (Malu Rodrigues) e Chava (Julia Bernat), que desafiam a tradição judaica, ao rejeitar os casamentos arranjados e adotar comportamentos que desviam do estabelecido. Ao lado da esposa Golda, vivida por Soraya Ravenle, ele tenta dar conta dos conflitos familiares enquanto enfrenta a hostilidade de grupos russos orientados pelas diretrizes anti-semitas do Czar.
O Grupo Bradesco Seguros é o principal patrocinador do espetáculo ‘Um Violinista no Telhado’. A iniciativa faz parte do Circuito Cultural Bradesco Seguros, que apresenta todos os anos um calendário diversificado de eventos artísticos com peças de grande sucesso, musicais, concertos de música e exposições.

O desafio de Mayer
Sem nunca perder a leveza – como um violinista –, Tevye lida à sua maneira com estes conflitos. Entre bem-humoradas conversas com Deus e com a esposa, ele busca conciliar as tradições ancestrais com a realidade de suas filhas e do local onde vive. Prova de fogo para qualquer ator, o personagem exige um intérprete carismático, que equilibre técnica vocal e comunicação com a plateia. Charles Möeller e Claudio Botelho logo pensaram em José Mayer para o desafio.
O ator, por sua vez, já acalentava o sonho de fazer um musical há pelo menos três anos, quando começou a freqüentar aulas de canto com regularidade. Em seu último trabalho nos palcos, ‘Um Boêmio no Céu’ (2007), Mayer já entoava algumas canções de Catulo da Paixão Cearense. Agora ele se prepara para dar vida a números famosos, como ‘If I Were a Rich Man’ (‘Se eu fosse Rico’), que fizeram a fama de vários intérpretes mundo afora.
Como Tevye original da Broadway, o grande comediante Zero Mostel recebeu o Tony de Melhor Ator de Musical. Recentemente remontado na broadway, o musical teve Alfred Molina como Tevye, o que rendeu ao ator uma indicação ao prêmio Tony de Melhor Ator em 2004.
Claudio Botelho, autor da versão brasileira e supervisor musical desta montagem, confirma que ‘o papel de Tevye exige uma das maiores entregas vocais de personagens masculinos entre os musicais da Broadway. As canções dele se alternam entre temas judaicos suaves e bem-humorados (‘If I Were a Rich Man’), passando por fortes e dramáticos solilóquios e chegando ao extremo lirismo num emocionante dueto com a esposa Golda (‘Do you Love me?’). Se há mesmo um Rei Lear entre os papeis masculinos dentro do teatro musical, este é Tevye’.
Ao lado de Mayer, a veteraníssima de musicais Soraya Ravenle também se prepara para uma estreia. ‘Um Violinista no Telhado’ será seu primeiro musical internacional. Estrela de sucessos brasileiros como ‘Ópera do Malandro’ (2003), ‘Sassaricando’ (2007), ‘Dolores’ (1999) e ‘South American Way’ (2001), ela fará o primeiro trabalho interpretando versões em português para os grandes momentos cantados de seu personagem, ‘Do you Love Me?’ e ‘Sunrise, Sunset’.
Paz, amor e tradição
Mayer e Ravenle, ou melhor, Tevye e Golda, vivem em Anatevka, uma fictícia aldeia judaica no interior da Rússia no início do século passado. Em seu entorno, habitam moradores típicos, como o rabino (José Steinberg), a casamenteira (Ada Chaseliov), o açougueiro (Dudu Sandroni), o mendigo (Leo Wainer) e o forasteiro (Nicola Lama), que chega para modificar alguns costumes seculares destes personagens. Entre rezas e festas tradicionais, shabats e casamentos, a trama de ‘Um Violinista no Telhado’ se desenrola e serve de vitrine para os costumes judeus.
‘É muito interessante abordar o universo dos judeus bem antes do nazismo, quando já eram um povo expatriado. O que os mantém juntos é a tradição. Eles poderiam ter desaparecido, mas não aconteceu por causa, fundamentalmente, de um amor maior à família, à tradição e aos rituais. É muito bonito falar disso depois de um espetáculo que é um ritual, como o ‘Hair’’, analisa Charles Möeller.
Assim como em todos os últimos espetáculos de Möeller e Botelho, todo o elenco foi escolhido por testes, em concorridas audições cuja variedade de papeis – e inscritos – chamava a atenção. ‘É com certeza o nosso maior e mais variado elenco. Ele vai, literalmente dos 8 aos 80 anos’, conta Möeller. Entre crianças, jovens e adultos, o musical também marca o retorno de Marya Bravo (‘7 – O Musical’, ‘Lado a Lado com Sondheim’) aos trabalhos da dupla e o reencontro de André Loddi, Julia Bernat e Malu Rodrigues, jovem trio revelado em ‘O Despertar da Primavera’ (2009).

Dando vida a Anatevka
A aparente harmonia em que vive todo o povo de Anatevka oculta um cenário externo nada amistoso. Era a época dos conhecidos Pogroms, ataques em massa com clara finalidade de expulsão de judeus do território russo. ‘Não procurei tratar os russos como vilões, nem como mocinhos, não queria idealizar nada. O fato é que existia uma polícia secreta russa, que insuflava os ataques. O pogrom era incitado pela polícia, mas não era feito por ela. O povo judeu era uma espécie de bode expiatório para a população miserável não olhar para a riqueza do Czar’, analisa Möeller.
Anatevka funciona como um arquétipo de todas as pequenas aldeias judaicas da Europa Central no início do século passado. Para representá-la, o cenógrafo Rogério Falcão (‘A Noviça Rebelde’, ‘O Despertar da Primavera’, ‘Hair’) criou uma estrutura básica, em tom de madeira, com as casas da aldeia nas laterais, que saem de cena quando a ação se transfere para o interior.
‘Como o elenco é muito numeroso, tivemos a preocupação em deixar um bom espaço livre para a circulação dos atores e para as coreografias’, conta Rogério. Assim como ele, o figurinista Marcelo Pies precisou aumentar sua equipe para confeccionar os 160 figurinos de época, ricos em detalhes e com um elaborado trabalho de envelhecimento.
O maior desafio da dupla foi o número em que Tevye relata um sonho, que contará com efeitos nunca usados em palcos brasileiros. A cena tem discreta inspiração em ‘A Noiva Cadáver’, de Tim Burton, e vai trazer os atores com figurinos de mortos-vivos e máscaras produzidas especialmente para a montagem. A iluminação de Paulo César Medeiros e o visagismo, a cargo de Beto Carramanhos (‘7 – O Musical’, ‘Gypsy’) completarão o clima fantasmagórico do momento.

Décadas de sucesso
Toda a equipe criativa do musical contou com a consultoria de especialistas em cultura judaica, para não deixar nenhum detalhe escapar. Rogério chegou a ter que projetar novamente alguns elementos cenográficos para garantir a fidelidade ao universo ali retratado. O elenco participou, inclusive, de um workshop em que palestrantes como Michel Gherman, mestre em História Judaica pela Universidade Hebraica de Jerusalém, e o ator e pesquisador Claudio Erlichman deram um panorama histórico e mostraram toda a relevância que a obra possui dentro e fora da comunidade judaica.
Considerado um dos grandes clássicos da Broadway, ‘Um Violinista no Telhado’ tem uma longeva trajetória ao redor do mundo. Na época de sua estreia, em 1964, bateu todos os recordes de permanência, ficou quase oito anos em cartaz e arrebatou dez indicações ao Tony, vencendo em nove categorias. A montagem londrina de 1967 viria a consagrar o ator israelense Topol como Tevye, personagem que ele viveu também no filme (‘Fiddler on the Roof’, 1971) e até hoje segue em turnê pelos Estados Unidos. No mesmo ano de lançamento do longa-metragem, estreou a primeira versão brasileira do musical, protagonizada por Oswaldo Loureiro e Ida Gomes.

UM VIOLINISTA NO TELHADO
UM ESPETÁCULO DE Charles Möeller enbsp;Claudio Botelho
Baseado em histórias de Sholem Aleichem, sob permissão especial de Arnold Perl
TEXTO
Joseph Stein
LETRAS
Sheldon Harnick
MÚSICA
Jerry Bock
VERSÃO BRASILEIRA
Claudio Botelho
DIREÇÃO
Charles Möeller

ELENCO

José Mayer – Tevye
Soraya Ravenle – Golda

Rachel Rennhack – Tzeitel
Malu Rodrigues – Hodel
Julia Bernat – Chava
Ada Chaseliov – Yente
Dudu Sandroni – Lazar Wolf
Marya Bravo – Fruma Sarah
Nicola Lama – Perchik
André Loddi – Motel
Cirilo Luna – Fyedka 
Kelzy Ecard – Shandel

Com Arthur Marques, Augusto Arcanjo, Beto Vandesteen, Carlos Sanmartin, Cássio Pandolfi, Cristiana Pompeo, Darwin Del Fabro, Emmanuel Pasqualini, Fabio Porto, Giulia Nadruz, Guilherme Lazary, Jitman Vibranovski, José Steinberg, Julia Porto, Karin Dreyer, Léo Wainer, Lucas Drummond, Ricca Barros, Rodrigo Cirne, Sergio Stern, Tomás Quaresma, Wallace Ramires e Yashar Zambuzzi.
E as crianças Hannah Zeitone, Jonas Queiroz, Rachel Bonfante, Sofia Viamonte e Tié de Kühl e Machado.
DIREÇÃO MUSICAL
Marcelo Castro
COREOGRAFIA ORIGINAL
Jerome Robbins
RECRIAÇÃO COREOGRÁFICA
Janice Botelho
CENÁRIO
Rogério Falcão
FIGURINOS
Marcelo Pies
ILUMINAÇÃO
Paulo Cesar Medeiros
DESIGN DE SOM
Marcelo Claret 
VISAGISMO
Beto Carramanhos
COORDENAÇÃO ARTÍSTICA
Tina Salles
CASTING
Marcela Altberg
PRODUÇÃO EXECUTIVA
Aniela Jordan e Luiz Calainho


SERVIÇO

Estreia dia 20 de maio
Temporada de 20 de maio a 18 de setembro

Teatro Oi Casa Grande
Av. Afrânio de Mello Franco, 290 – Leblon.
Tel:nbsp; (21) 2511- 0800

Quintas e sextas, às 21h. Sábados, às 17h30 e 21h30. Domingos, às 19h.

Preços:

Quintas e sextas
Camarote R$ 120
Platéia Vip R$ 120
Platéia Setor 1 R$ 100
Balcão Setor 2 R$ 80
Balcão Setor 3 R$ 40

Sábados e domingos
Camarote R$ 150
Platéia Vip R$ 150
Platéia Setor 1 R$ 120 
Balcão Setor 2 R$ 100 
Balcão Setor 3 R$ 60

Horários da Bilheteria:
Terça e quarta das 15h às 20h, quinta e sexta 15h às 21h, sábados 12h às 21h30, domingos 12h às 19h. 

Ingressos pela Internet: www.ingresso.com

A
 bilheteria aceita todos os cartões de crédito e de débito

Acesso para deficientes físicos e poltronas para obesos

Capacidade do teatro: 926 lugares
Duração do espetáculo: 130 minutos (com intervalo de 15 minutos)
Classificação etária: 5 anos

domingo, 3 de abril de 2011

Lembranças


O menino olhava para o pai com devoção e tristeza no olhar. Seu herói estava sentado no meio-fio ao seu lado, cabisbaixo, todo sujo da tinta que o urubu de espuma preso no boné soltava, com um semblante indescritível para ele, mas que emanava uma decepção perene. Seu pai exalava angústia, oriunda de uma mistura de raiva e frustração. Tudo o que o garoto sentia era um profundo amor e a certeza do caminho a seguir.

Corria o ano de 1995 e ele havia completado dez anos. Seu pai prometera levá-lo ao Maracanã pela primeira vez para ver o seu clube de coração jogar. Entretanto, o garoto não nutria o mesmo sentimento que seu genitor. Não que torcesse por outro, apenas não era tão ligado a futebol assim. Era Flamengo por simpatia, para alegrar o pai. Não tinha certeza se o presente era para ele mesmo, mas ficava feliz por curtir momentos assim com o coroa.


Não era qualquer jogo: era um Fla-Flu! O clássico mais elegante e contagiante de todo o globo. Mais: era final de campeonato estadual no ano do centenário de criação do Maior do Mundo. Não era bem uma final, mas o último jogo do octogonal decisivo e os dois clubes eram, coincidentemente, os únicos com chances de levarem o título. Seu pai estava empolgado e com razão: o Mais Querido precisava de apenas um empate para se sagrar campeão e contava com o ataque dos sonhos - Sávio, Romário e Edmundo.

Saíram de casa vestidos com o Manto Sagrado, bandeira na mão e sorrisos no rosto. Felizes por estarem juntos. O pai orgulhoso por levar o seu rebento para torcer com ele e por compartilhar sua paixão. A certeza era de um dia inesquecível, um dia de emoção, glória e alegria.

Deixaram o carro em frente ao prédio de um amigo nas imediações da Praça Vanhargem. Caminhariam de lá. Seu pai tinha dois grupos de amigos: um de rubro-negros e outro de tricoletes, como chamava. Foram andando em direção ao Maraca e combinaram de se encontrar no mesmo prédio na volta para comemorar na Universidade do Chopp.

Em frente ao estádio, um homem vendia um boné com um urubu de espuma em cima. Seu pai queria comprar dois, mas (Graças a Deus!) era grande. O coroa colocou o apetrecho e entraram no estádio. Quando adentraram a área das arquibancadas, a visão era grandiosa. Algo que não dá para imaginar assistindo pela televisão. A energia no ar era quase palpável e eletrizava.

O anel principal estava dividido ao meio por uma corda azul controlada pela polícia. Aos poucos, a corda foi caminhando para o lado, pois os representantes da Nação Rubro Negra não paravam de chegar. Não demorou muito e dois terços do anel estavam de vermelho e preto. Os tricoletes ficaram reduzidos em espaço, mas não estavam tão apertados como a imensa massa rubro-negra. Eram mais de cento e vinte mil pessoas fazendo uma enorme festa, mesmo debaixo da chuva que caía.

O jogo começou e a alegria não durou muito. A sorte parecia sorrir para o florminense. Abriram o placar aos trinta minutos e fizeram o segundo aos quarenta e dois. A imensa Nação estava calada durante o intervalo. Os tricoletes cantavam e faziam uma enorme festa. Amigos chamavam seu pai para ir embora, mas ele não saía do lugar e todos ficaram. A tinta pingava do urubu por causa da chuva e o sujava todo. Ele não ligava, estava confiante de um segundo tempo melhor.

O jogo recomeçou, o tempo passava e a apreensão aumentava. Eis que, aos vinte e seis minutos, Romário marcou para o Flamengo. Na hora de buscar a bola na rede, Sorlei, do Flu, e Marquinhos, do Fla, desentenderam-se e foram expulsos. A galera acordou e começou a incentivar o time. Aos trinta e dois minutos, Fabinho empatou a partida. O desespero mudou de lado. Os tricoletes encolhem-se e se calam. Para piorar a situação deles, Lira foi expulso por causa de uma tesoura. A Nação já comemorava e os torcedores do florminense começaram a ir embora.

O que parecia impossível, porém, aconteceu. Aos cinquenta e dois minutos da segunda etapa, um gol de barriga desmoronou o sonho de milhares de cidadãos rubro-negros. Um momento, um lance, que mudou tudo na história daquele dia. Ainda assim, o que o menino não deixou de perceber foi que a torcida campeã era minúscula, já que poucos ficaram para ver o famigerado gol. Não tinha comparação com a imensa Nação que não arredava pé. Naquele momento, o que era simpatia e agrado ao pai, virou amor.

Ao saírem, caminharam em direção à Praça Vanhargem para encontrar os amigos. Lá chegando, sentaram-se no meio-fio para esperar. Ele apenas observava o pai. Tudo o que o garoto sentia era um profundo amor e a certeza do caminho a seguir. Um profundo amor pelo pai, pelo Flamengo e pela Nação. Levantou-se e deu um abraço apertado no pai, arrancando-lhe um sorriso. Os amigos chegaram cantando vitória e trepidando, mas nada abalava a felicidade dos dois. Foi realmente um dia inesquecível.


Hoje, o menino é um homem, pai também. Ele lembrou toda essa passagem de sua vida enquanto vestia o Manto Sagrado no corpo de seu herói e o cobria com uma bandeira. Decidiu que não choraria de tristeza pela perda, mas, como naquele dia de 1995, celebraria a união, a energia, a vida e o amor. Tinha certeza que ainda teria muitas alegrias e vitórias em sua passagem terrena, como o Flamengo teve e terá depois daquela derrota. Tudo o que ele mais queria era conseguir ensinar seu filho a amar como o pai dele o ensinou: com dedicação e desprendimento. Tudo se resume a Raça, Amor, Paixão e Magia!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

“Lixo Extraordinário” é indicado ao Oscar

Documentário mostra o trabalho do artista plástico Vik Muniz com os catadores de Jardim Gramacho (RJ), um dos maiores aterros sanitários do mundo

O longa-metragem Lixo Extraordinário, que tem direção conjunta dos brasileiros João Jardim e Karen Harley e da britânica Lucy Walker, foi indicado ao Oscar de melhor documentário. O filme, produzido pela brasileira O2 Filmes e a inglesa Almega Projects, já ganhou cerca de 20 prêmios em festivais importantes como Sundance e Berlim. Está em cartaz no Brasil desde sexta, 21 de janeiro.

Os diretores e produtores brasileiros comemoram: “A indicação da Academia joga luz sobre o universo dos c atadores e o trabalho de arte feito com material reciclável. A mistura do olhar estrangeiro com o olhar brasileiro deu força para o filme”, afirma João Jardim, co-diretor. “A indicação ao Oscar dará mais visibilidade à causa dos catadores, veio na hora certa já que o aterro de Jardim Gramacho será fechado em 2012”, conta Karen Harley, co-diretora.

A produtora executiva do filme, Andrea Barata Ribeiro, ressalta a importância dessa indicação para o Brasil: “É o reconhecimento do cinema nacional, mostra que estamos no caminho certo. A co-produção teve papel fundamental, permitiu juntar esforços para a realização do filme”, afirma Andrea.

Lixo Extraordinário mostra o trabalho do artista plástico Vik Muniz em um dos maiores aterros sanitários do mundo: o Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro. Lá, ele fotografa um grupo de catadores de materiais recicláveis, com o objetivo inicial de retratá-los. No entanto, o trabalho com esses personagens revela a dignidade e o desespero que enfrentam quando sugeridos a reimaginar suas vidas fora daquele ambiente.

M ais informações no site: www.lixoextraordinario.net

FICHA TÉCNICA

Direção:  Lucy Walker,
Codireção: João Jardim, Karen Harley
Produção: Angus Aynsley, Hank Levine
Coprodução: Peter Martin
Produção Executiva: Fernando Meirelles, Miel de Botton Aynsley, Andrea Barata Ribeiro, Jac kie de Botton
Música: Moby
Edição: Pedro Kos
Direção de Fotografia:  Dudu Miranda
Codireção de Fotografia: Heloisa Passos, Aa ron Phillips
Mixagem de Som: Aloysio Compasso, José Lozeiro
Duração: 99 minutos
Formato: RAIN
Som:&nbs p;Dolby Digital 5.1
Janela: 1:85
Ano de produção: 2009
Classificação Etária: Livre
Orçamento: US$ 1,5 milhões
Patrocínio: BB Seguro Auto, Ourocap, Eletrobrás
Viabilizado pela Lei do Incentivo ao Audiovisual (Art. 1º A)

PRÊMIOS E PARTICIPAÇÕES EM FESTIVAIS INTERNACIONAIS

SUNDANCE – Janeiro 2010
Prêmio do Público de Melhor Documentá rio Internacional

FESTIVAL DE BERLIM - Fevereiro 2010  
Prêmio da Anistia Inte rnacional (AI)
Prêmio do Público de Melhor Documentário – Mostra Panorama

FESTIVAL TRUE/ FALSE (EUA) – Março 2010
Seleção oficial
 
FULL FRAME DOCUMENTARY FESTIVAL (EUA) - Abril 2010 
Prêmio do Público de Melhor Documentário

DALLAS INTERNACIONAL FILM FESTIVAL (EUA) - Março 2010      
Prêmio Target Film Maker - Melhor Documentário

HOT DOCS (CANADA) - Maio 2010
Entre os 10 favoritos do público

PROVINCETOWN INTERNATIONAL FILM FESTIVAL (EUA) - Junho 2010
Prêmio HBO do Público - Melhor Documentário

SEATTLE FILM FESTIVAL (EUA) - Junho 2010
Prêmio Golden Space Nee dle – Melhor Documentário

MAUI FILM FESTIVAL (EUA) - Junho 2010
Prêmio do Público de Melhor Documentário Internacional

FESTIVAL DE PAULÍNIA (SP) - Julho 2010
Prêmio do Públic o de Melhor Documentário
Prêmio Especial do Júri

DURBAN INTERNATIONAL FILM FESTIVAL – Agosto 2010
Prêmio de Melhor Documentário
Prêmio do Público de Melhor Filme
Prêmio da Anistia Internacional (AI)

FESTIVAL DO RIO – Setembro 2010
Première Brasil Hors Concours

ECOFOCUS FILM FESTIVA L – Outubro 2010
Prêmio do Público de Melhor Longa-Metragem Documentário

TRINIDAD E TOBAGO FILM FESTIVAL – Outub ro 2010
P rêmio do Público de Melhor Documentário

FLAGSTAFF MOUNTAIN FILM FESTIVAL – Outubro 2010
Prêmio do Juri
 
VANCOUVER INTERNATIONAL FILM FESTIVAL – Outubro 2010
Rogers People's Choice Award

MOSTRA INTERNACIONAL DE SÃO PAULO INTERNACIONAL – Novembro 2010
Prêmio Itamaraty de Melhor Documentário

AMAZONAS FILM FESTIVAL - Novembro 2010
Prêmio Especial do Júri

INTERNATIONAL DOCUMENTARY F ILM FESTIVAL AMSTERDAM – Novembro 2010
Prêmio do Público

STOCKHOLM FILM FESTIVAL – Novembro 2010
Silver Audience Award
INTERNATIONAL DOCUMENTARY ASSOCIATION’S AWARDS – Novembro 2010
Pare Lorentz Award